Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Leonor e o Cromossoma do Amor

Este blog serve para vos falar um pouco da nossa vida enquanto pais de uma menina muito especial, pois tem o cromossoma do amor e na realidade foi isso mesmo que ela trouxe à nossa vida: muito amor!

Este blog serve para vos falar um pouco da nossa vida enquanto pais de uma menina muito especial, pois tem o cromossoma do amor e na realidade foi isso mesmo que ela trouxe à nossa vida: muito amor!

Leonor e o Cromossoma do Amor

15
Jan19

A confirmação

Neuza

Aos 15 dias de vida da Leonor, fomos chamados para nos apresentarmos no Hospital para uma consulta. Calculei que já tivessem chegado os resultados do cariótipo da Leonor. Andei demasiado ansiosa, à espera que esse dia chegasse a até ao momento em que entramos no consultório rezei, rezei muito para que estivesse tudo "normal". A minha avó estava em casa a ajudar-nos nos primeiros tempos com a Leonor e foi connosco.

Assim que nos sentámos, a médica (a mesma que nos "plantou" a suspeita) agarra nuns papéis e diz-nos que os resultados do cariótipo já tinham chegado e era por isso que estavamos ali.

Estava tão nervosa que o meu coração disparou e para além de a ouvir a ela, conseguia ouvi-lo também a ele, era incomodativo, mas ainda assim, completamente incontrolável.

O que se passou de seguida, foi um monólogo da médica: "Então, tal como nós suspeitavamos, a Leonor é portadora de trissomia 21, ela tem Síndrome de Down! Como sabem, é uma alteração genética que leva a que estes meninos não se desenvolvam a um ritmo normal, quer física (devido à hipotonia) quer cognitivamente. São crianças que têm de ser seguidas em diversas especialidades devido às patologias muitas vezes associadas e devem começar o quanto antes a terapia ocupacional para ajudar no seu desenvolvimento..."

Porque é que coloquei reticências no discurso acima mencionado? Porque deixei de a ouvir, eu bloqueei, não queria ouvir mais, queria ir-me embora. A minha filha tinha trissomia 21 e eu tinha rezado tanto, tinha tanta esperança. Na minha cabeça só conseguia perguntar: "Porquê meu Deus? Porquê a mim? Porquê a nós?". Enquanto a médica continuava a falar, eu mantinha-me a questionar Deus e olhava para o João que parecia estar muito atento ao que a médica dizia. Apesar de só querer chorar, mantive-me firme até ao fim da consulta.

Lembro-me ainda que a médica quis avaliar a Leonor, fazer-lhe um exame físico e só dizia: "Pois, ela é muito hipotónica, não tem força, devia mexer-se mais...blá blá blá (deixei de ouvir novamente)...voltou a falar que ela não ia ter o mesmo desenvolvimento dos outros meninos...blá blá blá novamente. Nesse momento, fez-se um clique. Então mas a médica sabe o futuro da minha filha??? Como é que ela sabe se ela terá ou não o desenvolvimento igual aos outros meninos ou não??? Como é que é possível, que um profissional de saúde seja o primeiro a rotular estas crianças??? Sim, naquele momento (e até hoje) foi o único momento em que senti algum tipo de discriminação.

Em relação ao facto da minha filha poder ou não mexer mais, sempre tive imensa pena da médica não ir passar um dia em minha casa para ver como ela mexe...é que nem a dormir pára quieta!

De seguida explicou-nos o que devíamos fazer, onde nos dirigirmos e acabou com: "Estejam preparados porque esta bebé irá dar mais trabalho que os outros bebés!"

Eu só pensava: "Mas como é que é possível? Não será demasiado já tudo o que foi dito? Eu sei lá se a minha filha me vai dar mais trabalho que os outros bebés ditos com um crescimento convencional, ela vai dar o trabalho que tiver de dar eu não tenho outros filhos para poder comparar e ainda que tivesse há crianças melhores e outras piores de criar, sem terem trissomia 21! E porque é que partimos do princípio que ela vai ter atraso no seu desenvolvimento? Não existem crianças, sem Síndrome de Down, que têm problemas a nível do desenvolvimento? Porque é que só estas crianças é que são rotuladas?".

Finalmente saimos dali. O caminho até casa foi feito em silêncio absoluto e fui a engolir tudo o que se tinha passado há instantes.

Quando chegámos a casa, a minha avó achou que eu e o João precisavamos de um abraço e foi nesse mesmo instante que eu e o João nos desmanchámos. O João chorou e eu chorei tanto, mas tanto. Não queria ouvir ninguém, só queria estar no meu canto, enroladinha em mim própria e chorar.

O João precisou apenas de 1h para se recompôr, começou logo a pesquisar sobre a trissomia, eu confesso que precisei de 3 dias. Passei 3 longos dias a chorar. Nesses 3 dias, cada vez que pegava e tratava da minha bebé, olhava para ela e só via as características todas da trissomia e isso ainda me fazia chorar mais.

Ao fim do 3º dia, o João decidiu dar-me um "basta" e fazer-me reagir e era exatamente isso que eu precisava, de um empurrãozinho. E como é que ele me fez isso? De uma forma muito simples, chegou-se ao pé de mim, abraçou-me e perguntou-me: "Vais amar menos a nossa filha por isto?" Aquela pergunta foi como uma bofetada bem dada e eu respondi: "Não, claro que não, eu amo a Leonor exatamente da mesma forma que amava antes de saber, mas é assim que estou a reagir, eu não queria estar assim!" e o meu super maridão responde: "Então estás a perder tempo com o quê? Do que estamos à espera para viver e ser felizes?". Meu Deus, que verdade tão grande, se eu amo a minha filha porque é que estou a perder tempo com isto, eu tenho de agir, reagir. Ela precisa de mim, precisa que eu a ame, que eu a cuide, que eu a proteja. Resumindo, ela precisa que eu seja mãe.

Nesse momento vieram-me logo à cabeça 2 episódios: o momento em que contei aos meus pais da confirmação e o momento em que contei à minha irmã. E as respostas faziam tanto sentido que foram mais 2 motivos que me fizeram reagir. Quando contei em soluços ao meu pai, a resposta que ele me deu foi: "Neuza, se a tua filha não tivesse trissomia tu não irias fazer tudo por ela? Claro que sim! E agora que sabes que tem, não vais fazer tudo por ela na mesma? Claro que sim. Então o que é que muda? Nada." Tão verdade.

O episódio com a minha irmã foi de uma leveza, foi tão simples, o que me leva a admirar a minha maninha demais. Quando lhe contei só me respondeu: " Sim, e então? É minha, nada muda!"

Fogo, o que é que eu estava a fazer da nossa vida? E juntando todos estes ensinamentos, endireitei-me, sorri e disse: "Vamos lá viver! Vamos lá ser felizes e encaminhar a nossa pipoca, vamos ajudá-la no que for preciso e ela vai vencer".

A partir desse dia, desse preciso momento, cada vez que olho para a Leonor o que vejo é isso mesmo, a minha Leonor e não a trissomia. Ai pessoal e se ela é linda, é tão linda a minha princesinha!

E assim começámos a viver...com muito amor e muita felicidade no nosso rosto e nos nossos corações.

20180819_094304 n.jpg

 

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Neuza 16.01.2019

    Obrigada Ana!

    Sim, somos muito amados e temos muito amor para dar. E sim, acredita, a minha pipoquinha é lindaaaaaa!!!

    Beijinhos
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Mais sobre mim

    foto do autor

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D