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Leonor e o Cromossoma do Amor

Este blog serve para vos falar um pouco da nossa vida enquanto pais de uma menina muito especial, pois tem o cromossoma do amor e na realidade foi isso mesmo que ela trouxe à nossa vida: muito amor!

Este blog serve para vos falar um pouco da nossa vida enquanto pais de uma menina muito especial, pois tem o cromossoma do amor e na realidade foi isso mesmo que ela trouxe à nossa vida: muito amor!

Leonor e o Cromossoma do Amor

14
Jan19

O Dia Em Que Tudo Mudou

Neuza

A Leonor tinha 2 dias de vida e estavamos a ter uma manhã tranquila, eu estava muito feliz com o meu rebento e faltava apenas 1h para termos o papá juntinho a nós durante a tarde (as visitas dos papás eram das 13h às 20h).

Nesse dia, por volta das 12h, entra uma pediatra no quarto e vem direita a mim. Nunca tinho visto aquela médica, não era nenhuma das que tinha visto a Leonor no dia anterior e eu pensei "mais um dia mais uma rodada de médicos para ver os meninos".

Mas eu estava absolutamente enganada. Eu não estava minimamente preparada para o que estava prestes a acontecer.

Quando chega ao pé de mim, pergunta-me se eu sou a mãe da Leonor, ao que eu respondo que sim. De seguida perguntou-me com quem a minha bebé era parecida (achei estranha a pergunta, não fazia sentido nenhum, a minha pequena tinha 2 dias de vida e ainda estava inchadinha de ter nascido à tão pouco tempo) e eu limito-me a responder consoante os feedback que me tinham dado e portanto a resposta foi que era parecida com o pai. Não percebi o que ela queria até aquele momento.

O discurso começou no instante seguinte.

"- Estive reunida com os colegas que viram ontem a Leonor e devido à sua hipotonia (e depois utiliza termos que nós - pais - não somos obrigados a saber, o que me valeu foi que eu também sou da área da saúde e portanto os mesmos não eram de todo desconhecidos para mim) e características da face, nós desconfiamos que a Leonor possa ter Síndrome de Down, ou seja, que ela possa ser portadora de trissomia 21! Não sei se já ouviu falar, se sabe o que é? Mas para termos a certeza temos de retirar-lhe um pouco de sangue para fazermos as análises - o cariótipo - que nos darão a certeza, mas para isso tem de me assinar este consentimento".

Fiquei sem chão. Não estava de todo preparada para o que acabava de ouvir, mas contive-me na altura. "Sim, sei bem em que consiste a trissomia 21, no entanto, a minha filha foi vista ontem por 3 médicos, perguntei a todos se estava tudo bem e todos me disseram que ela estava ótima e que se recomendava e hoje vêm dizer-me isto?"

O que se passou foi que desconfiaram logo que a minha bebé poderia ter Síndrome de Down pelo que esta médica me apresentava nesse dia, mas como os meus exames feitos durante a gravidez mostravam o contrário, ninguém, nenhum deles, me foi capaz de falar nessa suspeita. NENHUM. E vem esta médica, que se chega a mim e em momento algum olha sequer para a minha filha. E com este tipo de abordagem absolutamente ridícula...é parecida com quem????

Óbvio que assinei o papel, a partir do momento que me colocam esta suspeita em cima da mesa, eu vou querer saber, ter a certeza porque se se confirmar, nós como pais mais ou menos informados sobre a trissomia, sabemos que temos de agir o quanto antes.

Assinei o papel para a recolha de sangue da Leonor e a médica retira-se logo de seguida e eu fico ali, petrificada, sozinha e com uma imensidão de questões a passar na cabeça e ao mesmo tempo indignada com toda esta situação e falta de sensibilidade para comigo. Será que não podia ter esperado apenas mais 1h e vinha falar connosco (comigo e com o pai)? Mais uma horinha e eu teria todo o apoio do meu marido, iriamos viver esta situação a 2 e confortar-nos mutuamente.

Assim que a médica saiu, liguei para o João. Nessa altura já as lágrimas teimavam em correr-me pelo rosto de forma incontrolável, mal conseguia falar. Ainda assim, consegui contar ao João, por telefone, o que tinha acabado de se passar e pedi-lhe que viesse ter comigo imediatamente, eu precisava dele.

Ao mesmo tempo, tentava meter na minha cabeça que era só e apenas uma suspeita, podia ser um engano.

A verdade é que até então quando olhava para a minha filha nada via e a partir daquele momento, cada vez que eu olhava para a Leonor eu via que ela tinha as características sim...mas eu não queria ver, apesar delas estarem lá. Continuei a negar apesar de ver.

Como se costuma dizer: o maior cego é aquele que não quer ver! Eu estava cega e não queria mesmo ver.

Olhava para ela e via os olhinhos rasgados, no entanto, para mim, eram de família: a minha avó tem os olhinhos rasgados, a minha mãe também e eu também e por isso mesmo é que a minha filha também tinha. As orelhas pequenitas e implantadas mais acima do que era suposto, mas e então, não somos todos iguais, ela simplesmente tem orelhitas mais pequeninas...ela também nasceu pequenina e em relação aos outros bebés do nosso quarto também era a mais pequenina.

No fundo, eu sabia que era verdade, a Leonor tinha trissomia 21, mas eu não queria que fosse e arranjava desculpas a mim mesma, para aliviar a minha tristeza.

O João manteve-se calmo e a apoiar-me (pelo menos era o que transparecia) e era exatamente isso que eu precisava, de todo o seu apoio e que nunca me faltou.

Eu continuava com esperança. Rezei todos os dias e pedia a Deus que não fosse verdade, não havia motivo para ser e Deus não me ia fazer isso, eu não merecia.

Sabíamos que os resultados ainda deviam demorar uns bons dias, mas eu não sosseguei e sentia-me mal por olhar para a minha filha e não conseguir ver a linda bebé que ela era, não a conseguia contemplar como era suposto, apenas tentava encontrar  (ou melhor não encontrar) mais traços que me indicassem que ela tinha Síndrome de Down e passei os meus dias a arranjar desculpas para mim mesma.

Até que chegou o dia. O dia que mudou a nossa vida para sempre.

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