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Leonor e o Cromossoma do Amor

Este blog serve para vos falar um pouco da nossa vida enquanto pais de uma menina muito especial, pois tem o cromossoma do amor e na realidade foi isso mesmo que ela trouxe à nossa vida: muito amor!

Este blog serve para vos falar um pouco da nossa vida enquanto pais de uma menina muito especial, pois tem o cromossoma do amor e na realidade foi isso mesmo que ela trouxe à nossa vida: muito amor!

Leonor e o Cromossoma do Amor

11
Jan19

O Dia "L"

Neuza

Estavamos a 28 de Julho de 2018, eu tinha acordado mais ou menos bem disposta (para quem não comia sólidos há 2 dias, só conseguia ingerir líquidos e até a água já estava a tornar-se insuportável para mim, pois a azia teimava em não passar) e decidimos ir com uns amigos à praia. Durante a manhã tudo correu pelo melhor. Eu achava imensa graça ao facto da Leonor ser uma bebé muito mexida, mas assim que eu tocava com os pézinhos na água deixava de a sentir imediatamente. Só voltava a  dar ar de si quando eu me estava a secar na toalha. Até aqui tudo muito bem, nada de diferente.

Tudo mudou por volta das 13h. Comecei a sentir-me super mal disposta, com dores nas costas, sem posição para estar (ainda tive um dos nossos amigos a fazer-me massagens nas costas que me sabiam pela vida, mas ainda assim quando ele parava tudo voltava ao mesmo) e a azia...ai a azia não me largava e eu sentia que a cada segundo estava pior.

Pedi ao João para me levar para casa, eu não estava bem, só queria tomar um bom banho e deitar-me na cama. E assim fiz, deitei-me enrolada na toalha do banho porque nem força tinha para me vestir. Cochilei um pouco, o tempo do João tomar o seu banho e aproveitar que eu estava a descansar para ir pôr gasolina no carro.

Quando chegou (por volta das 17h) eu já estava acordada, mas cada vez a sentir-me pior. Lembro-me de lhe dizer: "Olha vamos para o Hospital, às urgências, que eu já não aguento esta azia, já não dá mais, Têm de me dar algo para me aliviar nem que seja intravenoso e depois que me mandem para casa!" E lá fomos.

Cheguei ao Hospital e fui logo chamada para a triagem (tive pena porque nas urgências não deixaram o João entrar comigo). É claro que a enfermeira me disse logo que a azia não é uma urgência, pois eu sabia que não e automaticamente (depois de ela me dizer aquilo) as lágrimas começam a correr-me pela cara abaixo e disse-lhe que já estava desesperada. Expliquei-lhe toda a situação: do facto de não conseguir comer, beber e até dormir. Ela mediu-me a tensão que estava altíssima, o que estranhei logo porque eu costumo ter sempre a tensão até mais para o baixo, mas ela não se manifestou e como tal acabei por não dar importância.

Pouco tempo depois o médico chama-me, vê-me e olha para os valores da minha tensão e não gostou muito do que viu e por isso mesmo mandou-me fazer um estudo de tensões, ou seja, durante um determinado período de tempo e de x em x tempo era-me medida a tensão. Como após esse teste a minha tensão teimava em não baixar, o médico quis que eu fizesse umas análises sanguíneas e lá fui eu, aí já acompanhada pelo João. Tivemos 1h no corredor à espera dos resultados.

Após esse tempo, o médico vem ter comigo ao corredor, pediu-me para entrar novamente para conversarmos e mais uma vez o João não pôde ir comigo.

Quando entro no gabinete atrás dele, tenho mais 2 médicos a olhar para mim. Um deles levanta-se, vem ter comigo cumprimenta-me e apresenta-se. Explica-me que esteve a ver os exames que eu tinha acabado de fazer e que a minha tensão estava muito alta (início de pré-eclâmpsia) e que a nível das análises sanguíneas eu tinha os parâmetros hepáticos (fígado) todos alterados. Que aquilo que eu tinha era chamado de Síndrome de Help e que eu iria voltar a ficar bem, que todos valores voltariam a normalizar assim que a Leonor nascesse e como tal eu não iria para casa, ia ficar lá e a cesariana seria realizada ainda naquele dia. Fiquei, por momentos, em choque. A partir desse instante e apesar de se passarem várias horas, a mim pareceu-me tudo muito rápido.

Não me deixaram ir ter com o João e dar-lhe a novidade sem antes me despir e vestir a bata. Quando chego ao pé do João, de bata, ele nem queria acreditar, a expressão dele mudou, percebi que tinha ficado apreensivo. Olho para ele e digo-lhe: "Amor as minhas análises não estão bem, o médico diz que o que tenho só vai passar quando a Leonor nascer e como tal ela vai nascer hoje, vou cá ficar e vão-me fazer a cesariana. Preciso que vás deixar as minhas coisas ao carro e que tragas o kit para a recolha das células estaminais e a mala que está pronta para o bloco de partos!" O João ficou branco e percebi que se sentia perdido, mas não se demorou, pegou nas coisinhas, foi fazer o que lhe pedi e apareceu ao pé de mim no bloco de partos.

Quando chegou eu já estava instalada num quarto, já me tinham colocado a soro e o médico estava a explicar todo o procedimento e a dizer-me que ainda havia uma senhora também para cesariana de urgência antes de mim e que eu iria ficar ali no quarto e depois seria a minha vez. Enquanto esperava fiquei a ver televisão e lembro-me que tive vontade de fazer xixi, mas não me deixaram sair da cama, veio uma auxiliar com uma arrastadeira e lembro-me que eu e o João nos rimos imenso enquanto eu fazia o meu xixizinho, isto porque a sensação que eu tinha é que não estava a acertar com aquilo e que estaria a urinar-me toda, a mim e à cama, mas não, acertei em cheio (ahahahah).

Passado uns minutos comecei a ter contrações e a utilizar aquilo que tinha aprendido nas aulas de preparação para o parto e quando o médico me veio ver ficou impressionado com a quantidade de contrações. Sou sincera, já não me lembro ao certo das dores que senti, mas não achei que fossem nada de especial. Sim, são dolorosas, mas para quem tinha dores menstruais como eu tinha, achei que era muito parecido. No entanto, quando me vinha uma contração, o João estava proibido de comunicar comigo...eu só queria silêncio nesses momentos.

E por fim, chegou a nossa hora. Não deixaram o João assitir e eu senti-me um pouco sozinha. Levaram-me para o bloco cirúrgico e deram-me a raquidiana (uma espécie de epidural). Rapidamente deixei de ter a perceção da dor. O nosso momento ia começar ali, mas para mim não estava a começar muito bem. Comecei a vomitar compulsivamente, o médico já se queixava porque estava a atrapalhar o trabalho dele, mas eu não conseguia controlar. E, às 00:07, de dia 29 de Julho de 2018, com 2.900 kg e 46 cm, oiço o choro da minha bebé pela primeira vez. Um choro bem forte, que me soube tão bem ouvir como quando ouvia o seu batimento cardíaco nas ecos. Aliás, soube-me tão melhor. Ali, naquele instante, a nossa vida mudou para sempre. Éramos pais! O nosso sonho tinha, literalmente, acabado de nascer.

Meteram-na ao pé de mim, olhei para ela, era linda, a bebé mais linda de todos. Tinha medo de não ter logo uma conexão com ela, de não sentir a ligação de mãe-filho no imediato, mas fui inundada por um amor gigante por aquele ser tão pequenino!

Tudo poderia ser perfeito, não fosse eu continuar a vomitar. Queriam mandar-me para os cuidados intensivos. Se eu fosse, a Leonor não poderia ir comigo e teria de ir para a neonatologia, mas como não havia vagas para mim, passei a noite no Bloco de Partos para vigilância. Como de manhã eu já me encontrava melhor, fomos então as duas para a enfermaria, juntinhas.

E começou assim a nossa jornada familiar.

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